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Fim dos Tempos (The Happening, 2008)

.........Ao término de uma sessão de "Fim dos Tempos", vaias e risadas já dizem tudo. Se M. Night Shyamalan ainda vai conseguir vender um próximo roteiro para algum estúdio, eu o aconselho a adaptar uma biografia de sua história em Hollywood e a virada surpresa na trama seria a transformação em diretor e roteirista indicado ao Oscar em um diretor/roteirista marginalizado, lutando para vender um roteiro. Se "A Dama na Água" (Lady In The Water) não foi capaz de destruir a reputação do diretor indiano, acreditava que nada mais o faria. Mas com a estréia de "Fim dos Tempos", as especulações voltaram.
.........Elliot Moore é um professor de Biologia em Nova York que tem sua vida cotidiana mudar completamente quando recebe a notícia de que a cidade foi alvo de um ataque terrorista. Na verdade, o espectador já tem noção a proporção desse suposto ataque. Primeiro os "infectados" perdem a fala, em seguida ficam fisicamente desorientados e então têm o impulso de se matarem. Junto de sua esposa e de seu melhor amigo e filha, todos partem para uma viagem de trem rumo à Pensilvânia, onde é dito que não houve ataque algum. Porém, no meio da viagem, o trem acaba parando em uma cidade rural, quando perde contato com qualquer outro ser humano. O grupo então se encontra perdido e sem comunicação com o mundo exterior ao mesmo tempo que se deparam com um fato que não poderiam imaginar. Os múltiplos ataques por toda a costa dos EUA levam a crer que não se trata de um ataque terrorista e logo Elliot se depara com uma terrível verdade que não está nos livros de Biologia: as toxinas que causam esses impulsos suicidas estão vindo das plantas, que de alguma forma alteraram suas composições químicas como forma de defesa e estão espalhando-as por todo os EUA, inclusive nessa pequena cidadezinha, o que faz com que todos tenham que correr pelas suas próprias vidas a fim se manterem-se imunes à infecção.
.........Shyamalan soube vender o filme muito bem. Primeiro teve todo o seu drama de ter o roteiro rejeitado pela Warner, que havia produzido seus últimos dois filmes, "A Dama na Água" e "A Vila" (The Village). Depois que a Fox comprou-o, anunciado como o primeiro roteiro da carreira do diretor com censura menor de 17 anos, logo pudemos ver um intrigante e interessante trailer e que acabou resultando em um esperado retorno, já que teve uma estréia de 30 milhões de dólares nos EUA, além de liderar as bilheterias do resto do mundo nesse último final de semana da sexta-feira 13. Junto a tudo isso, havia também a necessidade dos fãs de horror e suspense de "perdoarem" o indiano depois de seus últimos odiados filmes. Intrigados por essa premissa, Shyamalan vai conseguir obter retorno financeiro, como geralmente consegue, mas sua carreira pode estar mesmo próxima de não conseguir se reerguer. "A Dama na Água" foi um duro golpe na carreira do diretor/roteirista, um golpe que a maioria acreditava que condenaria a carreira do indiano. E agora, acredito que em sua próxima investida, não haverá muitos espectadores para perdoar. Shyamalan consegue com "Fim dos Tempos" mais uma vez mostrar-se um excelente diretor, algo que havia se perdido um pouco em seu filme anterior. Os 20 minutos iniciais são simplesmente fantásticos e funcionam de forma realmente aterrorizante, como a seqüência em que os construtores jogando-se de um prédio em obras, em um seqüência gráfica o suficiente para chocar qualquer fã do diretor. Ou mesmo a seqüência em que diferentes pessoas vão, um a um, usando a mesma arma para se matarem, uma cena de genialidade incrível. O que acontece com "Fim dos Tempos" é algo que desde "Corpo Fechado" (Unbreakable) já havia observando: seu talento como diretor vem se mostrando infinitamente superior ao seu talento como roteirista. "Fim dos Tempos" tem roteiro mundano, para não dizer imbecil. Os diálogos são de doer os ouvidos, como se fossem retirados de um filme sem elenco de famosos, sem orçamento e sem um diretor indicado ao Oscar.
.........O grande problema desse thriller apocalíptico é simplesmente propôr-se apenas a isso: ser um thriller apocalíptico. O rasteiro roteiro segue tantas fórmulas que logo na primeira aparição de Elliot Moore (personagem de Mark Wahlberg), já é possível, pelo seu discurso, ter a absoluta certeza de que uma informação dita por ele será (se você não assistiu ao filme e não quer saber de nada "revelador", pule para o próximo parágrafo) a exata explicação para os eventos do filme quando o final chegar. Dito e feito. Inclusive, todas as explicações que são dadas ao longo do filme sobre os eventos que estão ocorrendo são simples suposições e "chutes", geralmente proferidos pelos mais esquisitos personagens. E é claro que isso pode ser um recurso do roteiro para sempre novas surpresas surgirem durante a trama. O problema é que ao longo da projeção, o espectador vai percebendo que cada coisa idota que os personagens vão falando e acreditando, é realmente a verdade por trás dos fatos, e as teorias malucas são realmente a base dos acontecimentos. É impressionante como o documentário "Uma Verdade Incoveniente" (An Inconvenient Truth), que também fala sobre o aquecimento global e suas conseqüências em relação à natureza, consiga ser infinitamente mais assustador do que "Fim dos Tempos", mesmo com todas as seqüências de suicídio. Na verdade, todo o conceito que Shyalaman teve ao conceber o roteiro já estavam prejudicados quando tentou fazer algo hitchcockiano com as plantas, algo que funcionou bem com o mestre em "Os Pássaros" (The Birds), mas que nesse thriller parece simplesmente idiota. Em termos de comparação, recentemene Paul Verhoeven, por alguma razão inexplicável, decidiu fazer no clímax de seu filme "A Espiã" (Zwartboek), a personagem principal lutando por uma barra de chocolate. Da mesma forma, Shyamalan faz seus personagens correrem do vento quase que durante todo o filme. É possível imaginar o quanto tenso é assistir personagens fugindo do vento? Não? Assista a "Fim dos Tempos" para saber. E por falar em clímax, eu gostaria muito de saber onde foi que Shyamalan o enfiou quando escreveu o roteiro, já que não há momento algum que nem se assemelhe a um. Aliás, o filme nem mesmo segue uma ordem lógica, fazendo com que longas seqüências pudessem ser mudadas de ordem e o filme continuar a fazer "sentido", dentro de sua própria lógica, é claro .
.........Mas Shyamalan não é o maior culpado. Para falar a verdade, ele pode novamente ser culpado pela direção dos atores, algo que geralmente ele faz bem, mas que parece ter perdido mais uma habilidade nessa sua nova investida. Enquanto parece não ter mais como piorar como roteirista, como diretor, aos poucos o espectador o vê sucumbir. Mas o elenco realmente não ajuda e todos, sem exceção, não convencem em seus personagens, não convencem em suas atitudes. A começar pelo próprio Wahlberg, que como professor de Biologia, é um ótimo modelo de cuecas da Calvin Klein. Sua falas são geralmente proferidas em tom profético e completamente ensaiadas, tornando qualquer interação sua com qualquer personagem algo completamente artifical e estúpida. A relação com a sua mulher e até mesmo com seu melhor amigo, Julian, são comprometidas. Por que será tão difícil manter uma conversa natural durante todo o filme? Tudo parece uma grande sátira de filmes de horror e suspense, levando o espectador por diversas vezes ao riso involuntário. Zooey Deschanel é sempre linda e enigmática, mas seu timing cômico só a atrapalha em "Fim dos Tempos". Shyamalan não se incomodou em avisá-la de que sua persona esquisita não combina com a sua personagem ou nem mesmo com o próprio filme. Ela continua parecendo um ser completamente distante desse planeta. Distante desse planeta também parece ser a pequena Ashlyn Sanchez, que assemelha-se a um robozinho. Ela não tem presençae suas falas são mecânicas, o que reforça minha teoria de que o talento de Shyamalan está sucumbindo, já que ele pode ser considerado como um dos responsáveis por trazer Haley Joel Osment para o estrelato com um indicação ao Oscar por "O Sexto Sentido" (The Sixth Sense). Quem assistiu a outros trabalhos do jovem, sabe que ele não é um ator excepcional. E em um filme em que John Leguizamo é responsável pela melhor performance, já é motivo suficiente para saber que há algo de realmente muito perturbador acontecendo com o elenco. Algo muito mais perturbador do que ocorre com os respectivos personagens.
.........É duro adimitir que um cineasta capaz de criar uma orbra-prima do porte de "O Sexto Sentido" acabe ruindo aos poucos diante dos olhos de espectadores do mundo todo. Lentamente sua carreira foi-se desconstruindo, culpa do enorme sucesso de seu filme de estréia em Hollywood, que levou os executivos dos estúdios o tratarem como os espectadores de todo o mundo; como o "cara dos filmes assustadores com finais surpreendentes". Para minha surpresa, "Fim dos Tempos" não tem final surpreendente, a não ser que ser o pior filme da carreira do indiano possa ser considerado como essa virada surpresa.


por Artur Castro


16 de junho de 2008

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